
Ouves a canção do mar?!
A pequena abre as janelas quase que ao mesmo tempo em que os olhos...
Que dia lindo!
O sol brilha hoje como nunca antes!
Na verdade, ela já nem se lembra de ontem...
Mas quem se importa com o ontem?!
Que dia lindo!
Corre ao banheiro,
Fazendo mil coisas ao mesmo tempo como se não tivesse um segundo a perder.
A pequena escova os dentes, veste o maiô e desce as escadas sorridente.
"Bom dia manhê!"
A beija.
"Bom dia papai",
O abraça apertado.
"Tô indo pro mar!"
"Espera meu anjo!
Come algo."
Ela pega qualquer coisa
E vai a porta...
De olhos fechados inspira o doce ar salgado!
Um novo dia nasceu,
Presente de Deus!
A esperança renasce e ela jura cuidar dessa semente...
Se depender de si, ela brotará!
Agora corre pra areia com as preciosas ferramentas em mãos.
Cuidadosamente escolhe o lugar,
E segue em direção as ondas que cantavam desde cedo.
Voltando com o baldinho cheio de água,
Ela se senta e começa a orar...
"Deus, aqui estou eu;
Recomeçarei.
Nem mesmo sei se me deixarás terminar dessa vez,
Mas obrigada por me permitir tentar!"
E como arquiteta,
Artista,
Por vezes ainda, como mulher tocando um bebê,
Ela levanta seu castelo.
Cada torre... Cada portal,
E por fim as muralhas ao seu redor.
Bate as mãos sacudindo a areia.
Passa o braço na testinha bronzeada
Olhando a sua criação,
E para.
Para, olhando a criação enquanto entrega uma ultima prece:
"Deus, eis aqui o meu castelo.
Tu conheces o meu coração,
Sabes o quanto sonhei ao seu respeito...
Mas eu o entrego a Ti!
Pra que faças a tua vontade,
Qualquer que seja.”
Ela não era hipócrita,
Já havia perdido alguns outros tantos castelos e sabia o quanto doía
E o quanto cada um lhe valia, singularmente.
Mas não desistiria de construí-los,
Havia recebido intrínseca ordem de fazê-los.
Não entendia o porquê, não conseguia ver... Posto que nunca os reencontrava.
Mas decidiu ouvir seu coração a cada vez que se manifestasse.
E assim o faria.
O que a pequena não sabia,
Era do senhor que ali passava diariamente.
Com a saúde afetada e dias avançados, já não tinha companhia.
Sozinho caminhava chutando a areia a pensar.
Olhava nos retrovisores de sua vida e só via chuva,
Chuva ou lágrimas? Não sabia.
Clamou então a Deus,
Sem saber se era tarde demais,
Mesmo assim arriscaria.
A perder, nada mais tinha.
Silêncio.
Enquanto sua boca calava, seu coração declamava a mais linda entre as orações...
Até que algumas poucas palavras conseguiram fugir da sua boca:
"Deus, manifesta-te a mim?!"
Então sem querer, seu pé direito adentrou um buraco na areia.
Quando ia reclamar, percebeu algo vizinho ao buraco:
Um lindo castelinho de areia!
Lindo, embora rústico e infantil.
Enfeitado com conchas em suas altas torres.
Subitamente, ouviu divina voz o seu velho coração.
Sentou-se a beira do castelo sem saber se deveria rir ou chorar...
"Vês o buraco?
Ele teve um propósito!
Vês o castelo?
Ele tem um passado!"
Enquanto isso a pequena corria saltitante a caminho de casa,
Cheia de uma sensação de dever cumprido
E confiante, de que Deus,
Ele mesmo cuidaria de cada um dos seus castelos...